O treino do PSV terminou há meia hora e, enquanto os companheiros se dirigem ao vestiário, Atiba Hutchinson prolonga a sessão acompanhado do seu auxiliar técnico. O jogador canadense está acostumado a fazer mais do que os outros quando é preciso e tem uma explicação simples para isso. "O caminho para chegar onde estou foi longo", aponta o meio-campista ao FIFA.com. "Se eu tivesse passaporte europeu teria sido mais fácil. Precisei trabalhar bastante."
Filho de imigrantes de Trinidad e Tobago nascido na região metropolitana de Toronto, Hutchinson seguiu um caminho incomum quando decidiu atravessar o Atlântico há 11 anos para se aventurar em testes na Hungria, Itália e Alemanha para iniciar sua carreira no futebol profissional. A chegada à Suécia como um completo desconhecido em 2003 abriu as portas para o sucesso na Escandinávia, e ele não deixou a oportunidade passar.
Depois de quatro títulos pelo Copenhague e um justo prêmio de melhor jogador da liga dinamarquesa em 2009/10, Hutchinson foi contratado pelo PSV em abril do ano passado e, pouco a pouco, vem justificando o investimento — "mesmo que nunca me reconheçam na rua quando estou no país", brinca — depois de ter passado quase metade de seu primeiro ano na Eredivisie improvisado na lateral direita.
"O treinador me instalou na direita e joguei atrás na primeira metade da temporada", conta o jogador da seleção canadense, que às vezes é escalado como zagueiro na equipe nacional. "Foi uma adaptação complicada, especialmente porque naquele momento eu também precisava superar o desafio de me integrar ao novo clube e a um campeonato que eu não conhecia." De volta à posição de origem, o meio-campista habilidoso e de características ofensivas precisou aprender a controlar o ímpeto sob as ordens do técnico Fred Rutten.
 
Precisamos ganhar os jogos que estão ao nosso alcance, principalmente fora de casa, onde somos realmente frágeis. Precisamos aprender a ser mais guerreiros

Atiba Hutchinson, meio-campista do PSV e da seleção canadense
"Adoro tabelar e ir para a frente, mas aqui a minha função é mais defensiva e preciso esperar o momento certo para avançar com a bola", explica o canadense, que segue evoluindo na terra dos vice-campeões do mundo. "Fiquei um tempo na Dinamarca e queria passar a uma nova etapa para continuar o meu crescimento. A Holanda é o lugar ideal para progredir e se desenvolver no esporte. É um futebol que combina comigo, mais técnico do que na Escandinávia. A posse da bola é muito importante e a filosofia geral é ofensiva."
Eleito Jogador do Ano do Canadá em 2010, Hutchinson cresceu acompanhando os jogos do Campeonato Inglês pela televisão e não esconde a ambição de um dia atuar no país. "Se eu chegar lá, terei conseguido tudo", comenta o atleta, fazendo uma ressalva quase imediata. "Na verdade, tudo não."
De volta para casa
Feliz com sua trajetória pessoal, Hutchinson muda ligeiramente de humor ao falar sobre sua seleção. Por outro lado, o que ameniza a dor pela pouca visibilidade do Canadá no cenário mundial é saber que passos importantes vêm sendo dados no país. "Tenho orgulho de vestir a camisa da seleção e espero que a gente continue evoluindo, porque o futebol canadense está no bom caminho há dois ou três anos", aponta. "Em breve teremos um terceiro time na Major League Soccer e o clima na seleção está mais positivo. O sistema implementado pelo treinador está funcionando bem."

Depois de ter participado de duas edições da Copa do Mundo Sub-20 da FIFA, em 2001 e 2003, Hutchinson se prepara para disputar a Copa Ouro no meio do ano. Embora satisfeito com o número cada vez maior de canadenses em clubes da Europa e dos Estados Unidos, o astro da seleção se mostra ciente das dificuldades que encontrará pela frente. "Temos uns apagões que custam caro, nos desconcentramos com muita facilidade", reconhece, passando em seguida às soluções para os problemas e a um sonho que ainda espera realizar.
"Precisamos ganhar os jogos que estão ao nosso alcance, principalmente fora de casa, onde somos realmente frágeis. Precisamos aprender a ser mais guerreiros", destaca, confiante. "Desta forma, a classificação para a Copa do Mundo seria possível."